É BARULHO, É PEDRA QUEIMANDO!
Ficamos atentos na noite de 28.03.2010, na programação televisiva. Havia uma chamada insistente sobre o crack em Brasília, reportagem exibida pelo programa Fantástico, na qual participamos.
As imagens foram gradativamente impactando os telespectadores que, paradoxalmente, permaneciam distantes e próximos da problemática do uso de drogas no país.
Em Brasília, a capital do país, sede do poder, onde decisões importantes acontecem a todo o momento. Cidade agitada, na qual pessoas circulam de forma apressadamente, buscando sintonia com um tempo que, insistentemente, as mantém atrasadas. É preciso correr atrás do tempo, de um tempo de fazer! E, infelizmente, constatar a perda do tempo de ver e ouvir.
Há adultos e crianças ao nosso lado que não correm tanto. Exceto para tentar matar seus desejos e suas fissuras pela fumaça de uma pedrinha, tempo rápido, seis minutos, para começar tudo de novo, dia após dia. Há uma hemorragia, que não será estancada com procedimentos paliativos. Há uma pandemia que não se interromperá com campanhas de vacinação. Há crianças, ainda em formação, que estão virando pedra. Há muitas pedras, que estão vendendo a ilusão de vida na morte.
Há muito trabalho a ser feito, muita informação a ser passada, assimilada, muita gente a ser ouvida, muito sofrimento a ser interrompido, muitas crianças a amadurecer.
Quando notaremos esse caos? Quando tais questões irão nos mobilizar? O que podemos fazer?
Fala-se da droga: A droga é uma questão social, falta educação, falta prevenção, falta tratamento... Mas, não falta droga! Às vezes, tenho a impressão de que quem entende tal narrativa são os usuários, os dependentes e os toxicômanos. Esses sim sabem que a droga é uma droga: é pedra, é pó, é erva, é liquido, é sólido... Que a droga é objeto inanimado, sem vida. Quem lhe atribui vida para posteriormente a crucificar? Crucificar o objeto, o objeto sem vida. Que incoerência, que falta de senso, que falta de percepção. Enfim, que aniquilamento do sujeito.
Ah sim! Quase ia me esquecendo de contar que há um sujeito antes ou atrás da droga. Há uma boca que aspira a fumaça, há mãos que acendem o cachimbo, que preparam a carreira, o baseado e seguram o copo. Existem sujeitos que desejam e só conhecem isso de seus desejos. E também, obviamente, há aqueles ainda em formação. As crianças exibidas assemelham-se a meros robôs que visam tão somente repetir e repetir atos. Pois, ainda aparentam não pensar, ou bem, parecem que não tiveram acesso a isso, ao pensamento, a avaliação e a reflexão, salvo o reflexo do espelho.
Percebo tamanha ironia, desconhecimento e mestria na questão das drogas (?), como se a droga fizesse questão... .Acho que esse desabafo diz do meu impacto, da minha indignação diante de tanta paralisação, ou mesmo, diante de tanta agitação em nome do que é vendável. Parece até que estipulamos preços para a vida, já que ela parece não ter nenhum. As pessoas passam, feitos zumbis, ávidos e semimortos e nem enxergamos, mesmo a luz do dia... Será que os raios ultravioletas já nos cegaram?
Parece que nunca será suficiente apresentar a gravidade deste sintoma e desta situação que se alastra, como já disse, como pandemia! Penso que podemos agir como as formigas e, ao valorizar nosso pequeno tamanho, trabalharmos em equipe e assim, conquistarmos alguma solução.
Qual é a minha proposta? Ouvir...
No país há diversos e diferentes profissionais que certamente estão solitários e indignados frente ao tsunami que varre as cidades. Proponho: vamos ouvi-los? Tanto aos usuários como àqueles que desejam tratar.
Certamente há muitos dependentes espalhados por esse Brasil, que desejam e precisam falar,
alem de agir, agir e agir. Falar provavelmente deste não saber, não saber o que fazer, além do que
já fazem... Vamos ouvir?
Sinto-me só na crença de tal escuta. Convoco àqueles que, sensíveis, comungam das minhas idéias.
Àqueles que acreditam que essas pessoas têm o que falar e que possam suportar ouvir tamanha
denúncia. É preciso ouvido, espaço, investimento e, principalmente, seriedade!
Janete Krissak Pinheiro
Psicanalista e Diretora Clinica da Clinica do Renascer
Brasília - DF . |