É uma pena que as instituições que tratam da saúde mental e sobretudo das toxicomanias
se reconheçam como clinicas de recuperação.
Lendo um texto de Silvia Spertino Chagas, psicanalista, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre, intitulado “A Mulher Toxicômana” ¹, deparei-me com um antigo mal-estar vivido por nós da Clinica do Renascer. A autora faz referência ao toxicômano: “observamos que o toxicômano encontra-se, por vezes, nas mãos da Justiça e, outras, nas mãos da Medicina, resultando que o sujeito é considerado um delinqüente ou um doente.
Mas o barulhento toxicômano ultrapassa o alcance da Medicina e da Justiça, não se deixa encerrar em conceitos psicopatológicos ou jurídicos (Bucher, 1992). Desafia a sociedade e a si mesmo, a ponto de provocar a emergência de variadas clínicas chamadas, nos últimos tempos, de recuperação, que transitam numa ideologia que oscila em relação ao paradoxo de tentar encerrar a toxicomania nos limites da doença ou da delinqüência.
Conseqüentemente, pensar as toxicomanias assim, sob estas categorias, é confirmar um discurso centrado na idéia de um corpo sem sujeito. Considerado apenas um corpo doente ou criminoso, não se leva em conta nos atos dos(as) toxicômanos(as) se expressa um ser humano que sofre.”¹
Esse mal-estar acontece porque, por vezes, somos confundidos com uma clinica de recuperação. Temos insistido ao longo dos anos em clarear a terminologia que aponta a recuperação como algo a se ter “de novo”, ou melhor, ter novamente alguma coisa perdida. Podemos nos servir da ambiguidade do termo e, quem sabe, pensar no tratamento como algo “de novo” a ser apresentado. O sujeito que faz sintomas, sobretudo o toxicômano, busca sair de um lugar, de um lugar que não o atende mais, como poderia desejar voltar a tal lugar?
Não entendemos a toxicomania na ordem da delinqüência e/ou da doença. Entendemos que há aí um sujeito para além de seu corpo, um sujeito que tanto sofre e deseja.
A doença mental também é vista como um processo que necessita ser estancado e interrompido, quando o delírio é a pura saída do psicótico, que urgentemente precisa expressar aquilo que não pode representar. Em outros termos, é a sua palavra.
É necessário entender os sintomas, tanto os neuróticos como os psicóticos, como falas e expressões de sujeitos que neste momento só conseguem se manifestar dessa forma. E, principalmente, questionar os profissionais que os atendem em suas próprias resistências, ou melhor, no que os impede de ouvir?
Outro mal-estar vivido por nós é a pressa. Há um tempo necessário para o sintoma vigorar que é ditado comumente por um terceiro que supõe SABER da patologia e exclui o sujeito como portador e autor dessa sintomatologia. Geralmente o sujeito é enquadrado num tempo cronológico aonde se espera uma resposta de remissão sintomática. Infelizmente muitos espaços entendem a remissão como tratamento.
Finalmente, é importante destacar que o nosso mal-estar resulta de uma insistência solitária na qual vislumbramos, através de um trabalho ético, a direção de cura para nossos pacientes que, impacientes, buscam alívio para suas angústias.
Janete Krissak Pinheiro
Psicanalista e Diretora Clinica da Clinica do Renascer
Brasília - DF
A CR HOJE
Ao longo de uma travessia de quase vinte anos, a equipe da CR vivenciou e participou de diferentes histórias que a permitiram crescer, aprender e amadurecer.
Há quase vinte anos ouvimos muitas vidas que refletiam angústias e dificuldades. Tais afetos transformavam-se em pedidos que, em muitos casos, felizmente, possibilitavam ao sujeito um novo olhar e lugar diante de sua própria história. Felizmente, reforço, vivenciamos conquistas.
Ao longo dos últimos anos o percurso da CR vem se (re)desenhando e nos permite, hoje, conhecer seu novo espaço. Parece-me que nossas questões e interesses caminharam ao lado da estrutura da clínica. Assim como vemos uma ampliação física, reconheço que a pergunta inicial que motivou o trabalho com os ditos “dependentes químicos” também não é mais a mesma. Se antes a questão que nos mobilizava era o que tem a dizer um toxicômano, ou melhor, o que ele fala com seu sintoma, hoje, para além dela, tentamos decifrar o enigma de seu gozo, gozo que esbarra e faz parceria com a pulsão de morte.
Trata-se de um trabalho de tradução de falas por vezes entrecortadas, alucinadas, delirantes... Falas que dizem do real, do real insimbolizavel que assombra o sujeito. Falas que perpetuam sintomas e aflições que não encontram porta de saída a não ser no corpo. Corpo, então, adoecido, não mais reconhecido pelo próprio sujeito. Há também as falas vazias de pegadas, de marcha, falas de falas, de falar por falar, falar porque se tem que falar. Noutros termos, falas desprovidas de saber.
A CR hoje inaugura um novo momento, um momento de ampliação que se dá no objetivo e no subjetivo. Nosso novo espaço vem contemplar e avalizar nosso desejo de um trabalho maior no qual possamos estender nossa pratica clinica. Vislumbramos o tratamento de outros sintomas que comparecem em outras estruturas. Não só barulhentas e vazias, mas também, angustiadas por encontrar um lugar para ancorar e se acalmar.
Ampliamos nosso atendimento para estruturas psicóticas e neuróticas graves, ajustando a assistência com inclusão de atividades dirigidas às diferentes patologias. Estendemos também para a modalidade de ambulatório, em nossa sede ou no plano piloto.
Saúde Mental é um caso sério, no sentido literal, caso por não ser acaso. Fato real, de peso, que envolve o mais particular do humano. É sério! Necessita-se de muita seriedade para fazer e não fazer, para saber e procurar saber e, além disso, para não sucumbir aos discursos que prometem rosas e magias.
Estamos felizes porque a CR vem ao longo desses quase vinte anos (e ideologicamente um pouco mais) fazendo o que entendemos ser possível e ético na direção da cura.
Janete Krissak Pinheiro
Psicanalista e Diretora Clinica da Clinica do Renascer
Brasília - DF
É BARULHO, É PEDRA QUEIMANDO!
Ficamos atentos na noite de 28.03.2010, na programação televisiva. Havia uma chamada insistente sobre o crack em Brasília, reportagem exibida pelo programa Fantástico, na qual participamos.
As imagens foram gradativamente impactando os telespectadores que, paradoxalmente, permaneciam distantes e próximos da problemática do uso de drogas no país.
Em Brasília, a capital do país, sede do poder, onde decisões importantes acontecem a todo o momento. Cidade agitada, na qual pessoas circulam de forma apressadamente, buscando sintonia com um tempo que, insistentemente, as mantém atrasadas. É preciso correr atrás do tempo, de um tempo de fazer! E, infelizmente, constatar a perda do tempo de ver e ouvir.
Há adultos e crianças ao nosso lado que não correm tanto. Exceto para tentar matar seus desejos e suas fissuras pela fumaça de uma pedrinha, tempo rápido, seis minutos, para começar tudo de novo, dia após dia. Há uma hemorragia, que não será estancada com procedimentos paliativos. Há uma pandemia que não se interromperá com campanhas de vacinação. Há crianças, ainda em formação, que estão virando pedra. Há muitas pedras, que estão vendendo a ilusão de vida na morte.
Há muito trabalho a ser feito, muita informação a ser passada, assimilada, muita gente a ser ouvida, muito sofrimento a ser interrompido, muitas crianças a amadurecer.
Quando notaremos esse caos? Quando tais questões irão nos mobilizar? O que podemos fazer?
Fala-se da droga: A droga é uma questão social, falta educação, falta prevenção, falta tratamento... Mas, não falta droga! Às vezes, tenho a impressão de que quem entende tal narrativa são os usuários, os dependentes e os toxicômanos. Esses sim sabem que a droga é uma droga: é pedra, é pó, é erva, é liquido, é sólido... Que a droga é objeto inanimado, sem vida. Quem lhe atribui vida para posteriormente a crucificar? Crucificar o objeto, o objeto sem vida. Que incoerência, que falta de senso, que falta de percepção. Enfim, que aniquilamento do sujeito.
Ah sim! Quase ia me esquecendo de contar que há um sujeito antes ou atrás da droga. Há uma boca que aspira a fumaça, há mãos que acendem o cachimbo, que preparam a carreira, o baseado e seguram o copo. Existem sujeitos que desejam e só conhecem isso de seus desejos. E também, obviamente, há aqueles ainda em formação. As crianças exibidas assemelham-se a meros robôs que visam tão somente repetir e repetir atos. Pois, ainda aparentam não pensar, ou bem, parecem que não tiveram acesso a isso, ao pensamento, a avaliação e a reflexão, salvo o reflexo do espelho.
Percebo tamanha ironia, desconhecimento e mestria na questão das drogas (?), como se a droga fizesse questão... .Acho que esse desabafo diz do meu impacto, da minha indignação diante de tanta paralisação, ou mesmo, diante de tanta agitação em nome do que é vendável. Parece até que estipulamos preços para a vida, já que ela parece não ter nenhum. As pessoas passam, feitos zumbis, ávidos e semimortos e nem enxergamos, mesmo a luz do dia... Será que os raios ultravioletas já nos cegaram?
Parece que nunca será suficiente apresentar a gravidade deste sintoma e desta situação que se alastra, como já disse, como pandemia! Penso que podemos agir como as formigas e, ao valorizar nosso pequeno tamanho, trabalharmos em equipe e assim, conquistarmos alguma solução.
Qual é a minha proposta? Ouvir...
No país há diversos e diferentes profissionais que certamente estão solitários e indignados frente ao tsunami que varre as cidades. Proponho: vamos ouvi-los? Tanto aos usuários como àqueles que desejam tratar.
Certamente há muitos dependentes espalhados por esse Brasil, que desejam e precisam falar,
alem de agir, agir e agir. Falar provavelmente deste não saber, não saber o que fazer, além do que
já fazem... Vamos ouvir?
Sinto-me só na crença de tal escuta. Convoco àqueles que, sensíveis, comungam das minhas idéias.
Àqueles que acreditam que essas pessoas têm o que falar e que possam suportar ouvir tamanha
denúncia. É preciso ouvido, espaço, investimento e, principalmente, seriedade!
Janete Krissak Pinheiro
Psicanalista e Diretora Clinica da Clinica do Renascer
Brasília - DF